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Novo Benfica

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22
Abr09

A estratégia e o "Sistema"

Miguel Álvares Ribeiro

 

Os posts publicados anteontem e ontem, pelo Pedro Fonseca e pelo António Sousa Cardoso, reflectem duas formas, aparentemente antagónicas, de analisar os problemas do Benfica mas que considero não ser possível dissociar.

 

O Pedro Fonseca fez uma descrição (breve) do sistema, a quem atribui os males do Benfica, adoptando uma posição desculpabilizadora das nossas falhas em termos organizativos; o António Sousa Cardoso, embora reconhecendo a existência do sistema, acha que se pode ignorá-lo pois se jogarmos bem e formos melhores é muito improvável que percamos.

 

Qualquer que seja a Direcção do Benfica, não pode ter resultados significativos se a sua análise e estratégia de actuação não tiverem em conta estas duas visões complementares sobre a situação do futebol em Portugal.

 

Não se pode adoptar a posição de desistir ou tudo justificar apenas porque o sistema não nos deixa ganhar. Por outro lado, não é possível ignorar a existência do sistema, pois ele mina os próprios fundamentos do edifício desportivo. Enquanto não houver confiança na existência de verdade desportiva, não pode haver competição leal e verdadeira.

 

Nem sempre é fácil a vida de um adepto de um clube, mas somos muitos e de muitos clubes e nem sequer é por a sua equipa perder mais vezes que os adeptos são menos aguerridos no apoio; mas se sentirem que perdem, não por serem piores mas por serem prejudicados por factores alheios à competição sadia, então a desconfiança, o descrédito e o desânimo, que certamente sentirão, pode levar à perda de muitos apoiantes dos clubes e do próprio sistema desportivo.

 

Quem me conhece sabe que sou um desportista. Apesar de nunca ter passado da mediania, já pratiquei vários desportos, sobretudo pelo gosto de jogar, da competição do convívio, etc. Obviamente gosto mais de ganhar do que de perder, mas a perspectiva da derrota não me tira o gosto de participar e sei reconhecer o mérito do adversário quando este o tem.

 

Para mim, o maior dos problemas do futebol prende-se com a perda dos valores éticos do espírito desportivo; deixou de ser um jogo para ser sobretudo uma guerra. Deixou de haver equipas adversárias que procuram jogar lealmente, na luta pelo melhor resultado, e dar um espectáculo interessante, para haver inimigos que se digladiam sem misericórdia em todos os foruns possíveis.

 

Este estado de coisas deve-se em grande parte ao Porto, que elegeu como estratégia de afirmação, há já cerca de 30 anos, uma guerra Porto-Lisboa, que passa sobretudo por uma guerra Porto-Benfica (e cada vez mais assim é, dado que o Sporting aceitou pactuar com o sistema, tacitamente, não o afrontando, para tirar os dividendos possíveis) e a criação de um clima intimidatório dos adeptos dos clubes rivais.

 

As posições que o Porto foi ocupando no edifício desportivo (e não só) faz com que a luta contra este estado de coisas seja muito dura e desgastante, além de proporcionar poucos resultados práticos no curto prazo. É, no entanto, imperioso prossegui-la e conseguir mudar este paradigma, por forma a que se possa voltar a acreditar no sistema desportivo.

 

É evidente que temos que ser críticos na avaliação da equipa e dos seus dirigentes pois é claro que nem tudo correu bem nesta época no seio do futebol do Benfica. É verdade que, apesar de estar a fazer uma época razoável, o Benfica passou por um longo período em que a equipa parecia apática e incapaz de produzir exibições convincentes, enquanto, pelo contrário, o Porto foi construindo uma equipa e melhorando a qualidade do futebol praticado.

 

Isto deve levar-nos a concordar que é necessário implementar uma cultura de exigência e melhorar a organização interna, bem como gerir melhor o fluxo de informação para o exterior. Por outro lado, a cultura de vitória de que fala o António, faz-se de vitórias e ficará sempre, pelo menos, a dúvida se este trajecto seria o mesmo se não tivesse havido “mãozinha amiga” em vários resultados no início da época e o Porto tivesse ficado a 6 ou 7 (ou mais) pontos da liderança.

 

Aliás, nem é preciso recuar tanto. Façamos um pequeno exercício de especulação; o que seria agora a Liga se nas últimas jornadas a Académica tivesse beneficiado de arbitragens isentas? Pelo que se viu o mais certo era que perdesse na Luz e vencesse ou empatasse com o Porto – bastaria aceitar os golos limpos marcados, assinalar os penalties que ficaram por marcar e invalidar os golos em fora de jogo. Apesar de toda a capacidade de organização que muitos lhe reconhecem e das outras ajudas que não foram contabilizadas, o Porto estaria neste momento 1 (ou 2) pontos à frente do Sporting e 2 (ou 3) à frente do Benfica, ou seja teríamos campeonato até ao último instante.

 

Para bem do Benfica e do próprio sistema desportivo, importa denunciar o sistema e lutar pelo seu fim, mas também convém que não fiquemos ingenuamente à espera que isso aconteça. Se o sistema existe e nos prejudica (melhor dito, se existe essencialmente para nos prejudicar) temos que ser ainda mais organizados, ainda mais fortes e unidos para o vencer.

 

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