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Novo Benfica

Novo Benfica

26
Jan09

O ESTADO E O FUTEBOL

Pedro Fonseca

Os já poucos vestígios de credibilidade do futebol português ficaram estilhaçados nos últimos dias. Depois da indignação concertada e hipócrita a propósito da arbitragem do Benfica – Braga, cujos erros se limitaram a um fora-de-jogo milimétrico no golo de David Luiz e a um eventual penálti de Luisão, eis que o que pretendiam com aquela feira de dislates foi conseguido em todo o seu esplendor.

 

São muitos anos de conivências, cumplicidades, cunhas, subornos, lealdades antigas, para que tudo rua como um castelo de cartas, por mais apitos dourados e finais que venham a lume. O país é o que é, e ponto final.
O mais dramático é perceber que as tentativas de credibilização da indústria do futebol sofreram um forte abalo na semana que passou, e dos escombros ainda não se sabe o que vai nascer. Convém, por isso, fazer uma retrospectiva rápida dos acontecimentos, após o que propomos algumas medidas para retirar o futebol desta chafurdice.
No final do Benfica – Braga, o treinador bracarense, Jorge Jesus, e o presidente do clube, António Salvador, (para além de alguns jogadores arsenalistas), atacaram a arbitragem de Paulo Batista em termos de uma violência que julgava já caída em desuso.
Mais a Norte, no estádio do Dragão, Jesualdo não escondia a azia pelo empate frente ao Trofense. E qual foi a desculpa que arranjou para desviar as atenções? “Passaram-se coisas estranhas num campo onde jogou outro candidato ao título”, disse. Bonito.
No dia seguinte, saltou para a ribalta esse “dinossauro” do poder local, Mesquita Machado, presidente da Câmara de Braga e, pasme-se, da Mesa da AG da Federação. Pediu a intervenção da Procuradoria e lançou diversas suspeições sem concretizar. O futebol português no seu melhor.
O “sistema” movimentava-se. A jornada que aí vinha podia ser decisiva e não convinha deixar nada ao acaso. Vítor Pereira, presidente da Comissão de Arbitragem ajudou à missa com declarações anedóticas e infelizes. O caldo estava preparado.
Incapaz de aguentar a pressão, Vítor Pereira fez o que tinha sido meticulosamente preparado. O “sistema” não dorme. Para o Restelo, avançou Elmano Santos, 21º classificado na época passada. O árbitro madeirense não deixou os seus créditos por mãos alheias – 3 grandes penalidades por marcar contra o Belenenses (2 sobre Suazo, 1 sobre Yebda) e uma expulsão perdoada a jogador azul por entrada de pitões na perna de Di Maria.
Para Braga, Paulo Costa velho conhecido dos “papas”, cuja arbitragem vai figurar no top das mais vergonhosas que já ocorreram em Portugal. Mas, para o Sporting de Braga, tudo pareceu normal.
Face a 3 penáltis contra o FC Porto por assinalar, 1º golo portista em fora-de-jogo, e agressão de Hulk a jogador bracarense sem punição disciplinar, Jorge Jesus, talvez com medo de não dar o salto ambicionado, aos costumes disse nada. Onde estava o indignado treinador que na Luz disse que “nunca tinha visto nada igual em 20 anos”? E Mesquita Machado, cujas palavras timoratas revelam compromissos antigos? Faça-se justiça, porém, a António Salvador, presidente do SC Braga, que quase repetiu “ipsis verbis” o que tinha dito na Luz, embora contra o FC Porto a gravidade do prejuízo tenha sido muito maior.
O que fazer? O futebol português só pode ser salvo se o Governo (neste caso, o Estado) intervir, e rapidamente. A intervenção governamental deve centrar-se na nomeação dos presidentes da Federação, Liga e Comissão de Arbitragem destes dois organismos.
Admito que esta medida seja transitória e que a sua regulamentação possa remeter para sede parlamentar a escolha dos titulares destes órgãos, para o que bastaria maioria simples. Teríamos, assim, o presidente da Federação a ser escolhido pelo Governo e o presidente da Liga a ser escolhido em sede parlamentar. Os responsáveis da arbitragem seriam escolhidos pelo Governo.
Se o órgão executivo e o órgão legislativo intervêm na escolha de titulares de organismos públicos como a Presidência do Conselho Superior de Magistratura ou da Procuradoria-Geral da República, porque razão não o podiam fazer no mundo do futebol?
Acresce que tal resultaria numa dignificação do cargo e Governo e/ou Parlamento podiam a todo o momento proceder a substituições (como de um qualquer ministro) – de 4 em 4 anos, como é vulgar em democracia, essas escolhas seriam avaliadas.
Rompia-se assim esta tenebrosa rede de influências, de compadrios e de favores. O presidente da Federação deixava de estar preocupado em agradar às associações, de cujo voto depende a sua eleição, - elas próprias geridas com base em troca de lealdades e outros “arranjos” (lembram-se do célebre “chito” de Adriano Pinto, à época presidente da AF Porto?). E o presidente da Liga (ressalve-se a boa vontade e o esforço do actual, Hermínio Loureiro) deixava de depender dos equilíbrios de poder entre os clubes. Um futebol mais são, mais transparente e mais credível tem de passar por esta mutação interna. Tem a palavra o Governo.

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