Domingo, 12 de Outubro de 2008

António de Souza-Cardoso em 12/10/08 |

 

Todos sabemos, mais ou menos empiricamente, que qualquer coisa para ter qualidade e consistência exige a existência e a validação do tempo.

Desde os deslumbrantes frescos da Capela Sistina, até ao mais mimoso doce do Convento de Tibães, tudo ficaria por cumprir se não pudéssemos dispor desse bem único que é o tempo, afinal aquele que assegura a nossa própria existência.

O tempo é de tal forma incontornável que já antes do adágio sobre Roma e Pavia, Deus simbolizou a criação do Mundo, na passagem do tempo. Apesar de, na Sua magnitude, poder limitar-se a “estalar os dedos”, a verdade é que quis representar a excelência da obra feita, no trabalho e no tempo que a garantem e dignificam. Por isso, só descansou ao sétimo dia.

Serve a reflexão dominical para introduzir a questão da “intermitência” do actual Benfica.

Confesso que sou daqueles Benfiquistas que não me conformo com menos do que vitórias e, com um lugar que não seja o primeiro de todos. Não contemporizo nem tenho paciência para menos do que isto, como infelizmente vejo em muitos Benfiquistas dos dias de hoje. Voltarei a este tema em “posts” futuros.

O Benfica e a sua Direcção, perante os desastrosos resultados desportivos das últimas épocas, têm sobre si a pressão do tempo. Da opinião pública e publicada, mas principalmente da sua espantosa massa associativa (o melhor activo do Benfica) que, tal como eu, não se conforma com menos do que ver o Benfica campeão.

Julgo que nesta época foram dados passos importantes para que o Benfica tenha finalmente uma organização coerente, em que cada um conhece o seu papel e o contributo que se lhe exige para um resultado de sucesso.

Mas a verdade é que é tudo novo, neste Benfica que ainda não é o “Novo Benfica”:

O director desportivo é novo, o treinador é novo, muitos dos jogadores mais influentes são novos enfim, apesar de a maioria de nós acreditar no potencial destas novidades, a verdade é que em termos de resultados ainda nada ganhamos e tudo são ainda promessas que o tempo pode ou não cumprir.

O drama parece ser que falta a este Benfica o tempo de confiança que precisa, para acomodar a mudança e assegurar um projecto de efectiva qualidade.

O Benfica chegou, uma vez mais (porquê??) tarde ao campeonato. Fez a pré-época com jogadores que já foram embora e sem muitos dos jogadores que hoje fazem parte da equipe principal.

Entrou novamente fora do tempo, e teve por isso que recuperar o tempo perdido. E, infelizmente, que fazer tudo…, ao mesmo tempo:

Interiorizar modelos, rotinas, mecanismos; ganhar qualidade física; garantir um colectivo equilibrado e coerente (volto a lembrar, aos que não deram valor, a falta de um defesa direito); e trabalhar muito os factores anímicos, motivacionais, de atitude e de liderança que é necessário incutir nos jogadores.

É esta falta de tempo, esta obrigação de fazer tudo ao mesmo tempo que fundamenta a tal “intermitência exibicional”. O Benfica já foi capaz do melhor e do pior em pouco mais de dois meses. Quer do ponto de vista físico - veja-se a diferença entre o jogo do Porto e o do Sporting; Quer do ponto de vista motivacional – veja-se a diferença entre os jogos do Nápoles e, por oposição, os do Rio Ave ou do Leixões.

Por isso eu que sou dos que não gosto de perder nem a feijões, sugiro que possamos dar um tempo de qualidade a este Benfica com tanta coisa de novo, para ver se ele se transforma mesmo no “Novo Benfica” que temos ambicionámos.

As contas, dos pontos e dos títulos, mas também as contas de quem deve ser responsabilizado pelo sucesso ou insucesso do projecto, fazem-se no fim.

No tempo certo - que espero seja o mesmo tempo que o Benfica precisa para ser Campeão.

 O tempo da Festa que há tanto tempo aguardámos.

 

António de Souza-Cardoso

 

PS1: Ao tempo que o Benfica precisa (e à intermitência exibicional que tem demonstrado) em nada ajuda a mesma intermitência no campeonato, constantemente interrompido por treinos ou jogos da selecção. Um equipe com tantos “seleccionáveis” ressente-se muito destes “intervalos de tempo”

 

 


sinto-me: ansioso
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